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jul
08

Somos o que comemos

Você busca uma vida saudável? Se sim, o primeiro passo é saber o que se come, pois como um velho ditado diz: “Somos o que comemos”. A Nutrição não tem uma boa reputação, pois a todo o momento “troca de opinião”, ora a margarina é melhor que a manteiga, ora a manteiga é melhor que a margarina… Ora o ovo faz bem, ora o ovo faz mal. Mas é através das características nutricionais dos alimentos é que podemos avaliar a qualidade do que comemos.

Várias doenças são geradas ou agravadas pela ausência de nutrientes. Um longo histórico dessas doenças pode ser feito, mas vou me reter a um exemplo. No século XVI, quando ainda não havia um conhecimento adequado dos nutrientes necessários para uma dieta mínima, os marinheiros que ficavam meses no mar, quando embarcavam, não levavam os alimentos para uma dieta adequada e pela deficiência de vitamina C muitos sucumbiam ao escorbuto e, conseqüentemente a morte.

Uma alimentação saudável é baseada em verduras, legumes e frutas. As vitaminas e os minerais estão diretamente ligados com as cores desses alimentos, assim um prato colorido é sinônimo de uma ampla variedade de vitaminas e minerais. A ingestão de raízes, massas e cereais também é fundamental, pois são nesses alimentos que encontramos as calorias necessárias para o nosso metabolismo diário. Todos esses produtos são suscetíveis a presença de agrotóxicos, assim recomenda-se sempre uma boa higeinização. O consumo de produtos orgânicos é uma alternativa as altas taxas de agrotóxicos encontrados nos alimentos.

A agricultura orgânica é a agricultura livre de produtos químicos, toda fertilização e controle de pragas são feitos com o uso de substâncias orgânicas (presentes na própria natureza) ou com tratamento manual (ex.: catar insetos). Várias pesquisas já demonstraram que é a agricultura mais saudável e rentável, mas a concorrência com as grandes corporações que querem empurrar goela abaixo os alimentos transgênicos (falaremos mais adiante sobre esse tipo agricultura), provoca um avanço menor dos orgânicos.

Mesmo acreditando que todo nosso consumo de alimentos deveria ser proveniente diretamente das feiras livres semanais, por questões ecológicas, sociais e alimentares, vivemos num mundo urbano, onde a maioria dos nossos alimentos são comprados em caixinhas de papelão, saquinhos plásticos, potes de vidro ou latas de aço, num supermercado com ar condicionado. Assim, é importante atentar para o consumo desses industrializados. No Brasil, existe um órgão governamental responsável pela fiscalização dos alimentos, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) subordinada ao Ministério da Saúde. Na tentativa de promover o consumo consciente, a ANVISA regulamentou um rótulo para os alimentos industrializados, além da regulamentação, ela criou e disponibiliza o manual do consumidor que orienta sobre o uso correto dos rótulos e oferece dicas para uma alimentação moderada. Apesar dessa rotulagem, devemos ficar atentos a “pegadinhas” de fabricantes. Muitas vezes já constatei embalagens com anúncios de alta concentração de algum nutriente que era inferior ao mesmo produto de outra marca que não continha nenhum aviso.

Nutricionalmente falando, em média, devemos consumir 2500 kcal (esse valor varia individualmente) e atingir uma quantidade de determinados componentes alimentares, porém não devemos consumi-los em excesso.

A ANVISA defende que a alimentação pode ser composta por quaisquer alimentos a partir de um uso moderado. Porém alguns alimentos são tratados como vilões. Por exemplo, o açúcar, muitos o tratam como um produto químico! Todos os derivados da cana de açúcar têm um tom marrom. Então porque o açúcar é branco? Alguns historiadores explicam que o açúcar era um produto muito valorizado e que no século XIX, descobriu-se uma maneira de deixar o açúcar branco e retirar o incômodo aspecto marrom que lembrava os negros. E acredite o processo para branquear o açúcar era acrescentando cal! Essa substância no seu organismo substitui o cálcio na formação dos ossos e causa osteoporose. Uma solução ao consumo de açúcar, é o açúcar orgânico que não têm aditivos químicos tem o mesmo poder adoçante.

Vamos aproveitar e falar dos adoçantes, existe dois tipos de adoçantes, os de mesa e os dietéticos. Os dietéticos, também conhecidos como edulcorantes, são aqueles que não contêm sacarose, frutose ou glicose e, são destinados a pessoas que não podem consumir esses carboidratos simples (os diabéticos). Os de mesa não contém calorias ou contém muito menos calorias que o açúcar e, são destinados aos que fazem uma dieta hipocalórica. Muitos discordam do uso de adoçantes para substituir o açúcar na dieta dos não-diabéticos, acusam os adoçantes de aumentar o desejo de comer doces, e recomendam, uma ingestão moderada do açúcar, como o Dr. Edson Credidio – Médico Nutrólogo, membro da ABRAN (Associação Brasileira de Nutrologia), diz ele num artigo publicado no próprio site da ABRAN: “Se o açúcar for utilizado de forma correta, levará a uma série de vantagens ao paciente, inclusive saciando a compulsão por doces. Portanto, é melhor administrar a ingestão do açúcar natural do que se intoxicar e causar danos a nossa saúde com o uso abusivo de adoçantes”. Veja abaixo uma lista de indicações e contra-indicações dos diversos tipos de adoçantes:

“Contém Glúten”, quantas vezes você já viu essa frase? Você sabe o que é o glúten? Glúten é uma proteína encontrada nos cereais como trigo, cevada ou centeio. Algumas pessoas desenvolvem alergia a essa proteína (pessoas celíacas), normalmente por questões genéticas e, por isso, os rótulos das embalagens devem conter este aviso. Porém não são apenas os celíacos que devem manerar no consumo de glúten, pois o glúten cola nas paredes do intestino provocando uma saturação no sistema digestivo que passa a concentrar gordura.

“Zero de gordura trans” é outro título famoso nas embalagens. Gordura trans é um tipo de gordura que diminui a presença do colesterol bom (HDL), aumentando a presença do colesterol ruim (LDL). A concentração de colesterol ruim sobe, aumentando as chances de entupimento de veias e artérias que podem levar a um infarto ou a um derrame cerebral(*).

Outro ingrediente que deve ser consumido com moderação é o sódio, presente em muitos alimentos, sua maior concentração é no cloreto de sódio ou simplesmente sal de cozinha. O consumo de sódio em excesso, aumenta a liberação de hormônios que implicam na retenção de líquidos no organismo, aumentando a pressão sangüínea e levando a hipertensão.

Uma frase que vive em nosso consciente é: “Tudo que é demais faz mal”. Nem sempre damos o crédito merecido a essa frase. Você tentaria encontrar várias coisas que demais não fazem mal, mas se você pensar bem, verá que não passa de uma primeira impressão. Por exemplo, você já ouviu fazer que água faz mal? Não. Mas beber muita água em um curto período de tempo pode levar à morte! Veja aqui uma matéria publicada na BBC Brasil contando um caso de morte por consumo excessivo de água.

Além de termos de nos preocupar com todos esses “detalhes”, ainda precisamos saber mais sobre o consumo de alimentos derivados de animais e dos transgênicos. Entramos agora, num assunto bastante polêmico, que nem os nutricionistas concordam entre si. A nossa alimentação deve ter origem exclusivamente vegetal? Ou os alimentos derivados dos animais devem fazer parte de nossa dieta? Vamos partir do seguinte ponto, tanto numa alimentação carnívora, quanto numa alimentação exclusivamente vegetal, podem atingir os nutrientes necessários a uma dieta adequada(**).

Então, qual é o problema em comer carne? Vou trabalhar sobre dois aspectos, primeiro, sobre a ética de se alimentar de outro animal e, segundo, sobre sustentabilidade ambiental. A ética do consumo de animais está na reflexão de que, se nós, como animais racionais, não necessitamos de nos alimentar de um outro animal, por que fazê-lo? Principalmente se levarmos em conta todo sofrimento e mal trato com os animais que se transformarão em comida. Na China, se come cachorro, você comeria o seu cachorro? Mas aí você vai dizer, o cachorro é diferente! Aí eu pergunto: O que o cachorro tem de diferente do porco ou da vaca? O Instituto Nina Rosa produziu um documentário excelente sobre o trajeto da carne, desde um músculo vivo na vaca, até o seu prato, chama-se “A Carne é Fraca“(*). Como essa questão é absolutamente individual, caminharei em direção ao segundo aspecto, a sustentabilidade ambiental do consumo de animais. Para se ter uma idéia do desperdício ambiental de se consumir carne, apresento duas tabelas abaixo: 1)Quantidade de água necessária para se produzir 1 kg de vários alimentos e; 2)Quantidade de alimentos que podem ser produzidos em um hectare de terra.

Você sabe quantas pessoas podem ser alimentas com a quantidade de cereais usados na produção de 225g de um bife? Quarenta pessoas! Isso, 40 pessoas! Mais informações pode ser lidas aqui.

Ainda nos resta uma decisão sobre os transgênicos. Os vegetais trangênicos são alterados geneticamente, ou seja, você faz uma alteração no DNA, que gera uma nova variação daquele vegetal que pode ser considerada como uma criação de algo que não existia antes. Na prática, empresas criam variedades de certos vegetais que são imunes a certas pragas, para economizar no uso de agrotóxicos.

Qual é a segurança alimentar desse alimento? Como os transgênicos são vegetais “inéditos”, não sabemos exatamente as conseqüências que o uso e consumo deles pode ocasionar, mesmo sabendo que muitos testes já foram aplicados.

O grande problema do uso dos transgênicos é social. Quando o produtor usa sementes transgênicas, ele é obrigado a usar os fertilizantes da mesma empresa, pois outros não terão efeito, dando origem a um monopólio. As sementes trangênicas são híbridas, ou seja, as sementes geradas por um vegetal trangênico não produzem outro vegetal, são inférteis. Isso significa que o produtor fica dependente das sementes trangênicas e não pode ele mesmo produzir as sementes necessárias para a próxima safra.

E agora? Você já sabe o que comer?

(*)Textos adicionados posteriormente em 01/07/08;

(**)A partir de uma observação feita pelo Dr. Renato Marandino, deve-se considerar que existe uma vitamina essencial que só é encontrada em comida de origem animal, a vitamina B12. Assim, em uma alimentação exclusivamente vegetariana, essa vitamina deve ser adquirida em forma de suplemento vitamínico.

Agora imaginem o caso de alguém com uma doença quase incurável… Que passe por muitas dificuldades… E que tenha uma pequena chance de se curar, uma chance em 100 mil… Você já calculou o que você pode oferecer a esta pessoa? VIDA! Pois é, VIDA. Esse cenário é o dia-a-dia de muitas pessoas… Hoje, centenas de pessoas estão a procura de doadores de medula óssea… E como essas pessoas descobrem se tem um doador? Elas fazem um exame de sangue para descobrir os detalhes do seu tipo sanguíneo, daí procuram num banco de dados onde estão cadastrados os doadores, um doador compatível… Que poderia ser você, se você tivesse cadastrado nesse banco de dados, o REDOME… Os doadores são pessoas que fazem um exame de sangue e deixam disponível nesse banco de dados… Se um dia for encontrado um possível receptor de sua medula óssea, você é convidado a fazer exames adicionais e, se confirmada a compatibilidade, vocë e convidado a fazer a doação.

A doação de medula óssea não é nenhum sacrifício de outro mundo… A medula óssea é um líquido que fica dentro do osso, é retirada uma pequena quantidade através de um pequeno procedimento cirúrgico totalmente indolor. Depois disso, você pode ter a satisfação de ter salvado uma vida de um ser humano que talvez mais ninguém fosse capaz. Procure hoje mesmo o REDOME, se cadastre no banco de dados!

Mais uma sugestão pra você! Dessa vida nada levamos. Essa é uma frase muito popular e se acreditamos que ela é verdadeira, se nada de material levamos, por que então sermos enterrados com nosso dinheiro? Ou nosso ouro? Ninguém mais faz isso, desde o Egito, certo? Errado! Quando morremos levamos a maior riqueza que poderíamos deixar na Terra, VIDA! Isso mesmo, quando nossas famílias não optam pela doação de nossos órgãos, estamos deixando de proporcionar VIDA a outras pessoas. Fale com seus familiares, converse, quebre esse tabu e proporcione VIDA a outras pessoas quando você não mais estiver aqui, essa será sua maior herança!

Adicionado em: 14/08/2011
Guia de Bolso – A Anvisa também está lançando uma proposta de Guia de Bolso sobre rotulagem, que será entregue à população nos supermercados de todo o país e terá como principal função esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto. Baixe o Guia de Bolso clicando aqui.

Creative Commons License
“Somos o que comemos” por
Gutemberg Motta é licenciado sob
Creative Commons Atribuição 2.5 Brasil License.

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10 Responses to “Somos o que comemos”


  1. 1 Juba
    01/08/2008 às 01:03

    Gu,

    Não vi você citar o filme “A Carne é fraca”… poderia ter feito 😉

    Podemos fazer uma comparação: a pessoa que vai a um rodízio de pizza, carne ou de self-service de comida vegetariana, por mais que coma “à vontade” (mais de três pratos, o qual eu mesma já fiz experiência, com direito a sopa, suco e cuca de banana) sai da última opção leve, sem aquela sensação que irá “explodir”…

    A questão que vejo também é o consumo de alimentos orgânicos, hambúrgueres de soja e tempeh*, salsicha de soja são produtos bem mais caros… mas na minha opinião vale a pena, quando analisamos o que consumindo não é de original animal…

    Amigos meus provaram e aprovaram a comida vegetariana!!

    Apenas meu pai que não quis provar… para todo caso, há exceção! rsrs

    E o artigo da Super Interessante?

    Aí é outro assunto… 🙂

    * O Tempeh é produzido através da fermentação controlada de Grãos de Sojas aspergidos com um fungo medicinal natural da Indonésia (Rhizopus Oligoporus); durante esse processo os grãos de soja tornam-se uma massa branca compacta. A fermentação do Tempeh produz também agentes antibióticos que aumentam a resistência do organismo contra infecções intestinais. O processo de fermentação mantém intactos os altamente benéficos Isoflavonas da Soja.

    É um dos alimentos conhecidos com maior concentração de proteína, cerca de 19%, igualando-se neste quesito à carne vermelha,o que o torna um dos alimentos mais nutritivos que existem, com muitos e variados benefícios, sendo inclusive totalmente isento de colesterol. Muito rico em vitaminas do complexo B(incluindo B6 e B12), nos minerais Ferro, Zinco e Magnésio, além de, como todo alimento fermentado, ser pré-digerido, portanto de facílima absorção pelo organismo, sendo o substituto perfeito para a carne nas dietas vegetarianas.

  2. 2 gutembergmotta
    01/08/2008 às 09:34

    Oi Ju,

    Você tem razão, vou ter que editar o texto novamente, para referenciar o filme e para falar um pouco sobre gordura trans!

  3. 3 quero ser anônimo
    01/08/2008 às 11:45

    Faltou lembrar que a pecuária pode ser desenvolvida em áreas impróprias à agricultura. E por isso muitas vezes não concorre com a produção de outros tipos de alimentos. Sendo que o grande concorrente é a soja.

  4. 4 gutembergmotta
    01/08/2008 às 19:00

    Primeiro você diz que a pecuária pode ser desenvolvida em áreas impróprias à agricultura, e em seguida diz que a soja é o principal concorrente. Entende-se que hoje a pecuária está sendo feita em áreas cultiváveis. E temos que analisar também o que seria uma área imprópria para a agricultura, pois no Brasil o que não é “agricultável”, é um meio ambiente preservado.

  5. 5 Graziele Pinheiro
    02/08/2008 às 13:16

    Nossa, que blog mais arrogante.

    Vou lá na churrascaria comer uma picanha!

  6. 6 gutembergmotta
    03/08/2008 às 22:37

    Olá Graziele, lamento que você tenha tido essa impressão hostil do blog. Mas ele está aberto ao debate, caso queira deixar sua opinião, não será censurada.

  7. 7 juh
    14/08/2008 às 16:29

    Adorei o site, eu estou pesquisado sobre as vitaminas em um trabalho da escola.
    Valeu pelas dicas!!! Abraços

  8. 8 Sonia Valeria Souza
    04/11/2009 às 18:54

    Adorei este site, gostaria de deizar uma pergunta, ou mesmo pedir uma ajuda, como faco para contar caloria dos alimentos?

    Tem como eu mesma fazer isto?

  9. 9 gutembergmotta
    05/11/2009 às 14:17

    Sonia,

    não sou especialista no assunto, mas esse site pode ajudar:

    http://www.cdof.com.br/nutri4.htm

    Abraços!


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