03
fev
10

Made in China, e daí?

Ressalto que todo o texto abaixo se isenta da discussão sobre a necessária redução do padrão de consumo urbano-contemporâneo de bens materiais e foge das questões sobre outros modelos de produção, discuti-se neste momento apenas sob o paradigma atual.

Em 2009 a China passou a Alemanha e tornou-se a maior exportadora do mundo! Fábricas no mundo inteiro estão sendo fechadas, desde a Europa até às três Américas. Pra cada fábrica que se fecha no Brasil, uma se abre na China. Alguns podem dizer: “É a lei do mercado! O custo-Brasil é muito alto, etc e etc”. Sabe, de certa maneira, eu concordo com essas pessoas… É a lei do mercado que transfere a produção de uma fábrica brasileira  que contrata por carteira assinada respeitando as normas trabalhistas e ambientais (Há exceções) pra abrir uma fábrica na China. Nessas fábricas, onde não se respeitam direitos trabalhistas ou leis ambientais (Não há exceções), temos crianças trabalhando mais de 16 horas por dia, pessoas sendo demitidas por terem sofrido um acidente de trabalho. Ou seja, também existe um custo-China, e esse, muito mais perverso que o nosso. Se o custo-Brasil é carteira assinada, salário mínimo, aposentadoria, preservação ambiental… Quero pagar por ele (Para além dessas garantias básicas existe também uma prática conhecida como comércio justo)!

Para além dos problemas ambientais in loco das fábricas chinesas, temos também a questão da poluição produzida pelo transporte desse comércio internacional. São os gases liberados na combustão dos caminhões, navios e até aviões que contribuem cada vez mais para o efeito estufa. Quando você tem a opção de comprar um chocalho fabricado no Brasil que precisou de um transporte terrestre de alguns quilómetros e você opta por um chocalho Made in China, você está contribuindo para o aquecimento global.

Como consumidores, temos o poder de escolher a proveniência dos produtos que adquirimos. Nós escolhemos se compramos produtos com exploração infantil, com esfoliação do trabalhador, com degradação ambiental e, que desemprega nosso povo. Além de toda essa questão sócio-ambiental, temos também um outro reflexo de todo esse processo, é a baixa qualidade dos produtos chineses, qualidade essa que põe em risco nossa própria saúde e segurança.

No dia 12/01/2010, saiu no jornal O GLOBO que o Walmart (Aliás essa é a maior “franquia” da China no mundo) importava da China umas bijuterias para crianças que vinham com chumbo em sua composição, o chumbo é um elemento tóxico! Então o Walmart reclamou. O que a China fez? Retirou o chumbo. E pôs cádmio no seu lugar, outro material tóxico. Entre vários outros e repetidos casos, tivemos o recall de carrinhos de bebê que amputavam dedos das crianças ou os casos da Mattel, maior “fabricante” de brinquedos do mundo, dona da marca Fisher-price e que terceiriza toda sua produção na China. Após alguns milhões de brinquedos com defeito, Mattel criou um site só para recalls!!!

Para falarmos do mundo da tecnologia, vou lembrar do caso da Apple, essa empresa reconhecida no mundo por sua qualidade. Através de seus produtos revolucionários como o iphone ou o ipad chegou a marca de maior empresa de tecnologia do mundo ultrapassando sua arqui-rival Microsoft em Maio de 2010. Atingiu um valor de mercado de 222 bilhões de dólares, com margens de lucro de aproximadamente 60%!!! Um de seus fornecedores asiáticos, a Foxconn, anunciou um aumento de mais de 100% nos salários de seus funcionários, excelente notícia se as causas fossem outras.  É que 11 trabalhadores cometeram suicídio devido a exploração sofrida dentro das fábricas, e esse número só não é maior porque outros não obtiveram  o mesmo sucesso em suas tentativas de suicídio.

Tudo bem, aí você muda de ideia e resolve consumir apenas produtos com o selo de “Indústria Brasileira”. Sinto informar, mas o problema não acabou, dentre os produtos produzidos no Brasil ainda temos aqueles que são produzidos por uma empresa estrangeira. Aí você me pergunta, e qual o problema? O problema é que você está dando dinheiro do país em vão… Só nos últimos dois anos, 2009 e 2010, a remessa de lucros ao exterior foi equivalente a mais de 50 bilhões dólares!!! Não vou nem pensar onde esse dinheiro poderia ser investido, seria um pensamento desperdiçado.

Vivemos num mundo capitalista e interagimos com ele, assim, pensar em um consumo mais consciente quando é necessário/desejável o consumo de bens manufaturados, pode ser parte de um processo maior de conscientização para nós e também para aqueles que observam.

PS: Também devemos lembrar que essa situação não se resume a China, mas também se expande a países como: Taiwan, Indonésia, Vietnã etc. E mais um detalhe, muitas vezes o “Made in China” vem camuflado como “Made in P.R.C.” que significa República Popular da China.

Creative Commons License
“Made in China, e daí?” por
Gutemberg Motta é licenciado sob
Creative Commons Atribuição 2.5 Brasil License.

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6 Responses to “Made in China, e daí?”


  1. 1 Manoela Freire
    03/02/2010 às 16:03

    Tinha que ser Sociologo mesmo.. ai ai!

    Bjão!!!!!

  2. 04/02/2010 às 14:59

    Fala Gutemberg. Mto coerente o seu post. Interessante que li ontem a sua publicação e hoje ao conferir as notícias no site da BBC Brasil reparei que havia, em destaque, uma matéria sobre o lucro do Santander que vai completamente ao encontro do que você afirma. Geramos um lucro de mais de 2 BILHÕES de Euros aos Espanhóis a um custo de 2 Mil empregos no Brasil. Segue o Link:
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/02/100204_santander_lucro_anelise_rw.shtml

  3. 3 André Laucas
    07/02/2010 às 17:40

    Fala Guto!
    Excelente o artigo e posso apenas acrescentar que toda a energia gerada neste país gigantesco e que tem mais de 1/4 da população mundial é gerada pela queima de carvão. Este fóssil é enviado a nossa já castigada atmosfera em “prol” do crescimento econômico daquele país que não mede esforços para competir num mundo mais do que capitalista, insano e suicida.
    Abraços

  4. 29/10/2013 às 10:00

    Um acréscimo sobre como muitas vezes enviamos dinheiro ao exterior sem perceber:

    “(…) quando uma pessoa compra diretamente um produto pela internet ou pedindo para um amigo trazer do exterior, ela está importando diretamente um produto estrangeiro. Outras transações eventuais realizada pelas pessoas promovem importações mesmo que ela não perceba, pois, ao comprar um celular, a pessoa adquire um aparelho fabricado no exterior. O mesmo acontece quando ela assiste a um filme de Hollywood ou compra um aplicativo para smartphone. Esse gasto acabará sendo em parte enviado para outros países.

    Outro exemplo menos óbvio é que, em uma simples busca no Google ou navegação no Facebook, você promove a importação de serviços de publicidade, prestados por esses sites a anunciantes brasileiros cujo público-alvo é… você. O turismo também é um exemplo que não pode ser esquecido. Quando um brasileiro faz compras em Miami, importamos. Quando um estrangeiro vem ao Brasil e consome, exportamos. ”

    http://br.financas.yahoo.com/noticias/voc-sabe-quem-decide-cota-o-d-lar-120400712–finance.html


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