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Eleições 2010

Terminamos mais uma apuração recorde, a apuração mais rápida da história. A tecnologia tupiniquim e a criatividade brasileira marcam presença nesse carnaval, digo nessa eleição. Neste escrutínio houve até reconhecimento biométrico em fase de testes, usamos nossas digitais para reconhecimento civil de eleitores. Conheço alguns personagens mundo afora que morrem de inveja por conta disso, uma democracia digital. Ops, falei democracia?!

Não queria entrar no assunto, mas já entrando, sem sua permissão, alguns dados instantâneos dessa apuração me deixaram curioso para não usar outro adjetivo parcial. Segundo o TSE, de um total de 135 milhões de eleitores aptos a votarem, 24 milhões(18,12%) não votaram. Como se isso não fosse o bastante desses 111 milhões de eleitores que sobraram, 10 milhões votaram em branco ou nulo para presidente. Ou seja, 34 milhões (25,19%) de cidadãos não participaram dessas eleições. Mas você pode argumentar que desses 34 milhões, 10 milhões votaram. Porém desde a lei 9.504 de 1997, votos em branco ou nulos não são considerados como votos válidos, é como se não existissem esses eleitores que fizeram seu voto de protesto.

Será que 25% dos eleitores não devam ser considerados? O voto no Brasil além de ser um direito, é um dever de todo cidadão. Para efeito de comparação, na Venezuela onde o voto é opcional, nas eleições legislativas deste ano, a abstenção não passou de 34%… A quem interessa que os votos em branco e nulos não sejam considerados? Certamente ao status quo que deseja demonstrar a “representatividade” da elite política.

O Estado do Rio de Janeiro que é considerado um Estado progressista com uma população mais crítica, apenas 68% do eleitorado teve sua voz contabilizada, os outros 32%, dentre votos inválidos e a abstinência, foram imperiosamente ignorados. No Estado de São Paulo, os eleitores costumam praticar outro tipo de protesto, o voto-incrível.

O que dizermos do candidato a deputado federal mais votado do Brasil? O palhaço Tiririca! Com as frases: “Vote no Tiririca, pior que está não fica” e “Palhaço é quem vota em palhaço”; o Tiririca foi a sensação dessas eleições, eleito em São Paulo com 1.353.820 votos. Isso também não é nenhuma nova onda, o desinteresse do eleitor já vem de outras eleições, veja o caso do Enéas em 2002 e do Clodovil em 2006, dois exemplos de um tipo de voto mixto, algo entre o satírico e o irresponsável.

Veja outro caso, o governador Sérgio Cabral que foi reeleito em 1 turno pelo Rio de Janeiro teve divulgado em todos os canais de comunicação que obteve 66% dos votos. Mas esses 66% são apenas dos votos válidos, na verdade do eleitorado total carioca (11.584.083), ele obteve o voto de apoio declarado de 5.217.972, ou 45% do eleitorado fluminenese. Um caso mais interessante é do Geraldo Alckmin, eleito em São Paulo  também em 1 turno com 50,63% dos votos (válidos); se fossem contabilizados os votos brancos e nulos, o Geraldo Alckmin teria alcançado apenas 45,51% dos votos, levando a eleição para o segundo turno.

A verdade é que o sistema democrático representativo como conhecemos está em decadência, devemos encontrar novas formas de provocar a participação política do povo. Por que não fazermos mais consultas populares? Plebiscito! Vamos retornar a realidade, tudo que aqui foi dito está no contra-fluxo do poder dominante e não passa de vã esperanças… Coisas de quem votou no Plínio… Ops, o voto é secreto…

 

Creative    Commons License
“Eleições 2010” por
Gutemberg Motta é licenciado sob
Creative Commons Atribuição 2.5 Brasil License.

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6 Responses to “Eleições 2010”


  1. 1 André Laucas
    05/10/2010 às 15:11

    Pois é amigo Guto, o problema é ainda a decadencia dos valores humanos, na moral preconizada pelos grandes sábios que passaram por este planeta. Não há forma de governo ou modelo economico ideal com pessoas preocupadas em questões pessoais em detrimento do coletivo. Dia virá (não sei se veremos nesta existencia) que o homem mudará esta triste história, mas ela começa com as atitudes de cada um de nós…

  2. 05/10/2010 às 23:23

    Podemos acreditar nessa ideia, mas não devemos deixar de tentar por causa dela. Cabral só chegou na América porque Colombo chegou antes e, este, só chegou na América porque muito tentaram e morreram antes. As mudanças são processos longos para o tempo humano.

  3. 05/10/2010 às 23:47

    Bom, eu tenho uma pequena (pequena mesmo) divergência: não acho que os votos inválidos devam ser considerados. Até porque sou a favor do voto facultativo. É anti-democrático a obrigação do voto. Abster-se deveria ser um direito. Pegue o exemplo do próprio Tiririca, em quem cai a suspeita do analfabetismo, o que o impediria de ser votado, mas não de votar. Há sim, o grande interesse do voto obrigatório e dessa democracia falsa, de fachada, que só interessa a grande elite política (agrária, latifundiária, exportadora, COLONIAL). A história do voto no Brasil é anti-democrática e golpista. Sem receio de dizer, nunca houve democracia no país.

    Abs
    Dacarpe

  4. 06/10/2010 às 09:31

    Vamos por parte, os votos são inválidos porque assim foi designado. O que você diz, é que deseja que os votos brancos e nulos continuem inválidos. Não concordo, mas talvez você concorde com a minha idéia, que tal se a decisão de ser válido ou não, coubesse ao próprio eleitor? Por exemplo, poderíamos definir que o votos em branco sejam inválidos e portanto não contabilizados e; o voto nulo seja válido, por consequência contabilizado. Daí poderíamos entender melhor o que significa esse contingente tão grande de votos em branco e nulos.
    Agora passando para um nível acima dessa discussão, o que é democracia? Nesse post ainda falo de uma democracia representativa capitalista, o que passa longe do meu conceito de democracia pura. Mas a discussão sempre se deve dar sobre o mundo do tangível e o mundo das ideias.

  5. 10/10/2010 às 07:13

    Olá Guto!
    Simplesmente amei o seu espaço!
    Seu texto com esse tema abordado, as opiniões colocadas e todo esse clima de alto nível nas declarações faz do seu blog um lugar seguro e interessante para se debater questões realmente relevantes.
    Essas eleições e os números que foram tão exaltados nestes dias deixam claras problemáticas que evidenciam a falência da nossa democracia. Este modelo de democracia representativa, validada pelo voto virtual, com candidatos “fakes” e dingos grudentos e debates tão sonolentos e desinteressantes. A obrigatoriedade do voto, o voto dos analfabetos e ineligibilidade do mesmo são monstruosidades legais que fazem da nossa democracia uma piada. As questões abordadas sobra a validade ou não dos votos em branco ou nulo são pertinentes porque a grande maioria faz essa opção de voto não por protesto, mas por desconhecimento, veja bem faço tal afirmação pautado no meu sentimento diante dos fatos sem me basear em qualquer dado de pesquisa, assim sendo acredito que o problema é ainda mais profundo…
    Espaços como esses deveriam ser mais procurados e acessados do que o orkut, facebook ou páginas e fofocas. A sociedade brasileira deveria estar debatendo essas questões. E a populução mundial deveria estar questionando temas como um novo modelo de governo contra o sucateado método de democracia representativa.
    É tempo de participação, interação e como neste blog é tempo das pessoas se envolverem nos debate, tomando conhecimento de causa e buscando soluções para problemáticas relacionadas com o cotidiano.
    Guto, meus parabéns pela iniciativa e pelo ótimo texto.
    Saudações!

  6. 11/10/2010 às 14:54

    Luciano,

    Obrigado pelos elogios, creio que até demasiados. Mas comentando um pouco o que você disse, eu mantenho uma galeria de links e blogs no Gutemblog que buscam justamente qualificar o debate. Sempre que puder, apareça e faça seus comentários!

    Um grande abraço!


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