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Tropa de Elite 2

Não me proponho a discutir os aspectos técnicos do filme, sobre sua qualidade ou sobre suas deficiências estéticas. Neste caso, temos um excelente filme com erros e acertos, mas não entrarei neste crivo. Mas qual é o nível de verossimilhança com a realidade deste filme? Qual o projeto? Este filme tem a pretensão de influenciar a realidade? E mais, o cinema (ou a arte) é capaz de mudar a realidade? Pois bem, em entrevista ao Jornal O GLOBO, no dia 19/10/2010, Luiz Eduardo Soares, um dos autores da obra, relata o seguinte:

“Nós dialogamos com a agenda pública de uma maneira que nenhum dos meus trabalhos acadêmicos puderam fazer, por mais que eles tivessem mais elementos que pudessem fundamentar intervenções. O mundo político não se sensibiliza pela razão, mas pela reação popular. Nosso objetivo principal é fazer com que a enorme ignorância sobres os riscos das milícias seja substituída pelo conhecimento e pela preocupação.”

Esse trecho sintetiza muita informação! A afirmação de que o mundo político não se sensibiliza pela razão pode parecer um pouco óbvia, mas não é. No imaginário popular, a razão seria uma das diretrizes do mundo. Também é demonstrada na citação que existe um objetivo com o filme, e passa por influenciar a realidade. Luiz Eduardo Soares afirma que o filme é muito mais eficaz em intervir na realidade que seus estudos acadêmicos, será?

Existe um paradoxo aqui. Se um dos próprios autores afirma que a razão não sensibiliza, por que usá-la didaticamente para explicar o funcionamento das relações demonstradas no filme? Não seria melhor centralizar esforços na tentativa de sensibilizar o expectador? Percebo um filme bem intencionado, mas pouco eficaz (como já poderíamos supor de filme) no seu “objetivo principal”. Como sensibilizar usando a razão?

Tropa de Elite 2 é mais uma prova de que o cinema (ou a arte) não muda nada por si só. Um filme que deve atingir a fenomenal marca de 10 milhões de expectadores (projeção minha), parece que seu impacto social não será proporcional a este número. A arte pode ser usada como uma ferramenta para algum objetivo, e somente como tal, nunca como um “ser com pernas próprias”. O meu receio nesse momento é:  O filme levará a banalização do debate em torno da política e da segurança pública? Será que o efeito pode ser contrário ao objetivado? Tenho certeza que um grupo de pessoas se sensibiliza pela razão e que o filme pode despertar em muitos uma consciência da realidade, mas são muito poucos se comparados aos milhões de expectadores. Se para alguns o filme pode ser elucidativo e indutor, para maioria pode ser simplesmente banalizador. Neste caso o saldo é positivo?

A nossa atual democracia é só mais um sistema de dominação como foi  escravidão, a grande diferença é que ela se preocupa com sua imagem. É um disfarce da realidade, uma ilusão e vive de muita propaganda. O capitalismo tem a incrível capacidade de se apropriar de tudo, foi assim com a democracia, foi assim com o rosto do Che Guevara e será assim com Tropa de Elite 2.

Aliás, por que esse filme não foi lançado antes das Eleições 2010?

Creative    Commons License
“Tropa de elite 2” por
Gutemberg Motta é licenciado sob
Creative Commons Atribuição 2.5 Brasil License.

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9 Responses to “Tropa de Elite 2”


  1. 1 Clara Sant'Anna
    25/10/2010 às 20:59

    “O filme levará a banalização do debate em torno da política e da segurança pública?”

    Não, porque é necessária a divulgação dessas críticas e dessas denúncias de forma simplificada e didática. Quanto mais acessível a informação se tornar sem se distorcer, é maior número de cidadãos que poderá entender melhor a realidade em que vivem , embora, nem assim, todos entendam (e nem sempre o motivo é a falta de boa escolarização) .
    Os meios de comunicação, que como você bem disse no texto fazem de tudo para criar “um disfarce da realidade, uma ilusão”, vão sempre tentar banalizar críticas ao Estado, já que não é seu objetivo modificá-lo. Por isso, é importante que um filme como ” Tropa de Elite 2″ tenha tamanha repercussão, porque embora muitos saiam intactos da sala de cinema, muitos outros (já que a expectativa é de milhões de expectadores) sairão com uma nova perspectiva. Assim como numa sala de aula, onde nem tudo o que é dito é assimilado por todos, se alguns já assimilarem alguma coisa, as dúvidas e as questões que ficam no inconsciente causam a busca pelo entendimento e consequentemente a transformação.
    Portanto, quanto maior o número de pessoas tendo contato com a informação, maior é o grupo com capacidade de criticar esses meios de comunicação que nos “guiam sobre rédea curta” e nos emburrecem.

  2. 2 Clara Sant'Anna
    25/10/2010 às 21:19

    Gostei muito do texto,mas o melhor é: “Aliás, por que esse filme não foi lançado antes das Eleições 2010?”

    Enfatizo essa pergunta.

    • 26/10/2010 às 10:09

      Clara,
      O filme tras o debate à tona, porém seus impactos, ao meu ver, são e serão muito aquém do tamanho do público atingido. Existe um sentimento de derrota na minha afirmação, eu sei… No fundo, também acredito que o saldo do filme será muito positivo, mas a desproporcionalidade entre o público e as conquistas me incomoda. Percebo que um filme desse tamanho está fazendo um trabalho de formiguina…
      Acho que estou repetitivo, mas é uma impressão muito forte.

  3. 26/10/2010 às 12:46

    Concordo com a Clara, todos devem ter acesso a esse tipo de crítica e é isso que mais me empolga no filme. Porque hoje eu consigo ver pessoas da comunidade percebendo o todo, percebendo como são manipulados..
    Com certeza o filme não alcançará a todos que o assistirem, mas com certeza alcançará alguns que nunca tiveram a oportunidade de ver esse todo manipulador!
    Ainda tem o outro lado, que é o do neguinho favelado que mora em uma comunidade comandada da milícia e chega ali e vê a denuncia daquilo que ele gostaria de gritar para o mundo quando estorquiram seu pai, quando mataram o joãozinho na esquina pq não pagou a mensalidade da gatonet. Acho a isso também se deve o sucesso do filme, uma vez que essa pessoas não tem voz nem vez… pode ser que nada mude, mas também pode ser que muitos jovens das comunidades passem a perceber o seu valor diante de tanta manipulação por voto.
    Não acredito que o filme levará a banalização do debate em torno da política e da segurança pública, até porque hoje não existe debate. O que existe é um discurso muitas vezes acadêmico e que não sai dali, porque como disse o Roberto Nascimento ” O Sistema é foda!” e povo continua sendo manipulado e como o próprio filme mostra só quem pode mudar essa situação é o próprio povão que muitas vezes não tem acesso a nada e que não sabe nem o que é debate, porque tem que matar um leão a cada dia!

    Enfim…eu acho que nesse sentido o filme ajuda as pessoas verem que a engrenagem está em nossas mãos e que podemos frear isso, o filme cumpriu a sua parte de colocar isso de forma atrativa e elucidativa. Bom é isso que eu penso!!

    • 26/10/2010 às 13:23

      Lilia,
      Concordo com vocês, o saldo é muito positivo. Mas a mídia tenta banalizar o assunto e isso me incomoda! Parece que todas as consequências citadas por vocês ainda são muito poucas se comparadas ao potencial que teoricamente este filme tem.
      Apesar da mídia anunciar os feitos do filme, os recordes de bilheteria, não há debate sobre o seu conteúdo. Não vejo as autoridades se posicionarem a respeito… O filme poderia catalizar uma nova agenda para a política de segurança, mas não acontece… Parece que o filme está sendo desperdiçado pela sociedade e aproveitado por poucos…

      • 6 Chris
        26/10/2010 às 14:24

        Concordo com as meninas. E acho que o Guto está muito pessimista quanto ao retorno social que o filme pode nos trazer. Até porque acho que mesmo que muito aquém do tamanho do público atingido, qualquer retorno positivo, vejo como mudança, e conquista social. Vamos assistir e levantar as discussões, quanto mais discussões e até polêmica em torno desses assuntos, estamos chamando todos a pensar.

      • 7 Chris
        26/10/2010 às 14:28

        Apesar de concordar com você que o filme parece estar sendo desperdiçado pela sociedade e aproveitado por poucos…

  4. 8 Eduardo
    30/10/2010 às 08:27

    Tropa de Elite 2, como pode ser percebido pelo nome (1, 2, … até que número iremos?) é daqueles filmes que antes de tudo são comerciais e precisam dar lucro nesse mundo capitalista. Não é arte pura, arte pela arte, mas negócio, pensando em lucro, em retorno. E, portanto, impregnado de todas as técnicas que garantam esse lucro. Surge de uma sociedade hipócrita, cheia de moralismos e de valores de fachada. Tentar enxergar um objetivo claro nesse cenário caótico de interesses, tentar encontrar purismo e objetividade nas motivações do filme é um exercício de devaneio. Nem mesmo a equipe do filme será capaz de definir claramente a sua intenção social. Posso lhe dizer, sem a menor sombra de dúvida, que DAR LUCRO é condição básica. Considerado esse entendimento inicial, podemos embarcar nessa viagem e tentar prever quais efeitos é capaz de provocar na sociedade (hipócrita, volto a lembrar). O artista (fazedor de arte e não de lucro) tem a sensibilidade de ver as coisas da vida com um olhar cortante, penetrante, não superficial, não óbvio. E nesse papel, funciona como o técnico de um time que, vendo o jogo de fora, consegue dar dicas para melhorar sua performance. No caso abordado pelo filme, o inimigo é outro… o nosso adversário, o time do outro lado é a nossa própria incapacidade de organização social… somos nós contra nós mesmos… é a eterna luta do BEM e do MAL que habitam nossos corações. Ainda falta muito para evoluirmos. Quem sabe que ao assistirmos Tropa de Elite 200 já tenhamos nos tornado seres humanos melhores?

    • 30/10/2010 às 16:13

      Eduardo,
      Excelente percepção! No final, a história da película termina numa disputa entre o BEM e o MAL. Agora, o sucesso por si só já é comercial, mas nem tudo que faz sucesso é puramente comercial. Creio que o Luiz Eduardo Soares resolveu entrar nessa indústria cinematográfica com segundas intenções e, para que estas intenções fossem possíveis, o filme deveria ser comercial. Apesar dele ter se tornado um artista a partir do momento em que concebe o filme, ele faz uma arte panfletária. Ele mostra uma realidade objetiva e não se perde em filosofias entre o BEM e o MAL. Existe uma realidade social à mostra e não apenas superficialmente; o filme deixa o final em aberto, mas praticamente propõe uma luta. O grande problema da suposta proposta dos idealizadores esbarra numa sociedade hipócrita que foi muito bem observado por você!


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