30
nov
11

O McLanche Feliz e o McEmpregado triste

Num dia de domingo ensolarado, uma família se dirige ao McDonald’s, e como não podia deixar de ser, mais um McLanche Feliz é consumido. Será que entendemos o significado de ato? Para além de todas as implicações nutricionais, para além de estarmos remetendo royalties ao exterior, o que mais podemos estar fazendo de errado? Agora também estamos financiando mais um crime, o descumprimento da legislação trabalhista brasileira. Como assim? Vamos aos fatos.

Desde 2005, o Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Bares e Restaurantes do estado de São Paulo (Sinthoresp) vem denunciando práticas abusivas de exploração de trabalho na maior rede de fast-food do mundo, o McDonald’s. Em troca da maximização do lucro ou mais tecnicamente, do aumento da mais-valia, o McDonald’s no Brasil, que é administrado pela Arcos Dorados, ignora a CLT. O Sinthoresp mantém uma lista com todas as notícias divulgadas na mídia a respeito da exploração de mão-de-obra no McDonald’s e criou um canal no Youtube com vídeos-denúncia. Tem ficado tão difícil esconder o caso com publicações até fora do Brasil, que começa a aparecer timidamente na grande mídia brasileira. Recentemente saiu uma matéria na Exame.com, onde mais da metade do texto é uma nota oficial da Arcos Dorados desmentindo o fato. E nesse mesmo sítio, encontramos outra matéria que veicula a informação do lucro trimestral do McDonald’s no mundo, a bagatela de 1,5 bilhão de dólares (Onde imagina-se que grande parte vem das operações de países emergentes como o Brasil). Em matéria do sítio “Isto É Dinheiro”, o maior acionista e administrador da Arcos Dorados diz como tirou a empresa da estagnação e vem batendo recordes de faturamento : “Temos aplicado em outros mercados a mesma disciplina com a qual atuamos na operação Argentina”.

Navegando pelo sítio da Arcos Dorados, selecionei alguns trechos interessantes.

Trecho sobre a empresa:

A Arcos Dorados é a maior operadora de restaurantes da América Latina e a maior franquia da marca McDonald’s em todo o mundo. Com mais de 86 mil funcionários, é reconhecida como uma das melhores empresas para se trabalhar na América Latina e uma das principais empregadoras de jovens no seu primeiro emprego. De acordo com a revista Latin Business Chronicle, a Arcos Dorados ocupa a 9a posição no ranking de 2010 dos maiores empregadores da região.A Arcos Dorados serve em média mais de 4 milhões de clientes por dia, nos seus mais de 1.750 restaurantes, 1300 Dessert Centers e 267 McCafés, distribuídos em 20 países e territórios (Argentina, Aruba, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Curaçao, Equador, Guadalupe, Guiana Francesa, Martinica, México, Panamá, Peru, Porto Rico, Saint Thomas, Saint Croix, Trinidad & Tobago, Uruguai e Venezuela).Em 2010, as vendas da empresa superaram US$ 3 bilhões.A Arcos Dorados guia seus negócios por uma visão de liderança apoiada em valores que envolvem o desenvolvimento de suas operações em um ambiente social e ambientalmente responsável. A empresa mantém um forte compromisso com a sua Gente e com as Comunidades nas quais opera, além de exercer ativamente sua Cidadania Corporativa por meio de iniciativas de Sustentabilidade, Nutrição, Bem-estar e Cultura.

Fica claro no primeiro trecho que estamos falando da maior operadora de restaurantes da América Latina.

Trechos do código de conduta:

NOSSA COMUNIDADE Temos um profundo compromisso com as comunidades em que operamos e com seu desenvolvimento. Nosso princípio de relacionamento com a comunidade é norteada pela responsabilidade corporativa que assumimos e a levamos a um nível superior. Desempenhamos um papel ativo no bem-estar de nossos empregados, clientes e vizinhos.
RESPEITO E DIGNIDADE Cada um de nossos empregados merece ser tratado com equidade, respeito e dignidade. Oferecemos igualdade de oportunidades a empregados e pessoas que nos solicitam trabalho.

Segundo o código de conduta, as seguintes ações promovidas pela empresa: “Desenvolvimento em um ambiente social e ambientalmente responsável”, “Forte compromisso com a sua gente e com as comunidades em que opera”, “Cidadania corportativa”, “Iniciativas de Sustentabilidade, nutrição, bem-estar e cultura” “Desempenhamos um papel ativo no bem-estar de nossos empregados”, “equidade, respeito e dignidade”. Se parte disso fosse cumprido, tenho certeza que o McDonald’s não seria sabatinado no Senado e na Câmara Federais. Esse tipo de desvinculação entre o escrito e o praticado é muito comum no Capitalismo, acontece muito com as empresas responsáveis ambientalmente, responsáveis socialmente, em grande parte das vezes tudo não passa de marketing!

DISPOSIÇÕES ANTISSUBORNO A Arcos Dorados e seus empregados, agentes e representantes devem cumprir com a lei norte-americana de Práticas de Corrupção no Exterior (Foreign Corrupt Practices Act, “FCPA”) e as convenções internacionais aplicáveis que proíbem a corrupção. Em geral, estas leis proíbem que companhias e seus empregados, agentes, ou representantes ofereçam, prometam, dêem ou autorizem a oferta ou algo de valor, diretamente ou através de um terceiro, a qualquer funcionário de governo com o fim de influenciar uma ação oficial ou de alguma outra forma obter uma vantagem comercial indevida. A FCPA (1) proíbe a cidadãos norte-americanos e a companhias norte-americanas de fazer pagamentos ilegais a um funcionário público fora dos EUA, e (2) torna obrigatórias normas de manutenção de registros para as empresas que cotam na Bolsa de Valores e estão registradas sob o Securities Exchange Act of 1934. Sob a FCPA, companhias e emissores norte-americanos podem estar expostos a responsabilidade legal pelas ações de suas filiais não norte-americanas e empregados não norte-americanos. Foram impostas sanções significativas, inclusive em casos em que as quantiasdos pagamentos indevidos não eram consideradas materiais para outros fins. Portanto, qualquer violação da FCPA, por menor que for, pode submeter o indivíduo e a Companhia à responsabilidade legal significativa, incluindo sanções penais. Interpretar a FCPA não é uma tarefa simples. Por vezes as situações caem em “zonas cinzentas” de entendimento. Se o empregado tiver perguntas com relação à FCPA ou a um pedido de pagamento, deve entrar em contato com o Departamento Jurídico ou a Área Corporativa de Organização e Controle.

Esse trecho acima me chamou muita atenção, mostra como somos um país colonizado… A Arcos Dorados obriga que seus empregados sigam uma lei norte-americana! Seus empregados que segundo pode ser acompanhando no sítio do Sinthoresp.

Prêmios recebidos:

Arcos Dorados homenageada pelo Worldfund 2010 Por sua contribuição de destaque á educação na América Latina, Woods Staton, presidente e CEO da Arcos Dorados, foi reconhecido ao lado de Jim Skinner, presidente da McDonald’s Corporation e vice-chairman, na sexta edição do Prêmio Anual Liderança em Educação do Worldfund.

A Arcos Dorados  recebe prêmio por contribuição à educação. Com certeza não é a educação proporcionada aos seus empregados! Como não se fosse pouco, o McDonald’s figura entre as 10 melhores empresas para se trabalhar em todo mundo segundo o Great Place to Work! Dá para acreditar?

Creative Commons License
“O McLanche Feliz e o McEmpregado triste” por Gutemberg Motta é licenciado sob Creative Commons Atribuição 2.5 Brasil License.

Eu apoio:

Support Wikipedia
Anúncios

2 Responses to “O McLanche Feliz e o McEmpregado triste”


  1. 01/12/2011 às 08:22

    O McDonalds é uma rede extremamente exploradora, mas, é necessário ver que essa exploração não rola somente com o MCDonalds. E, claro, o que importa não é quantidade da exploração de mais-valia, a existência da exploração.

    Eu, sinceramente, acho bobeira boicotar o Mc Donalds (assim como acho bobeira boicotar a Coca-Cola), em termos objetivos, claro. O boicote só é boicote se feito pela massa, sem isso, se torna só enchimento de ego (algo do tipo: pelo menos faço minha parte).

    • 2 gutembergmotta
      01/12/2011 às 16:56

      Vinicius,

      No post, não incito o boicote ao McDonald’s apesar de fazê-lo. Entendo seus argumentos e concordo quanto pequenez do ato perante o Capitalismo. E, que talvez trocar o McDonald’s pelo Bob’s não vá alterar em nada o jogo de forças dentro do sistema. Ocorre que para além disso, existe o fetiche pela marca, central ao Capitalismo, que de certa maneira é abalada quando passamos a não nos importar com ela. E, por fim, dentro do paradigma capitalista ao não deixarmos de enviar royalties ao exterior, estamos beneficiando nosso país e diminuindo o imperialismo financeiro.

      Não sugiro que fiquemos sem computador porque não temos peças brasileiras. Mas propago a ideia de um “consumo responsável”, principalmente como forma de um despertar educativo politicamente.

      Abraços


Comments are currently closed.

Categorias


%d blogueiros gostam disto: